Maracanã antes da gestão Fla-Flu: contas atrasadas, reparos milionários e os desafios para recuperar o estádio

Ilustração do Maracanã com gramado deteriorado e cadeiras danificadas, representando o período de abandono do estádio.

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Reportagem especial | Fotógrafo_RN

Ilustração do Maracanã com gramado deteriorado e cadeiras danificadas, representando o período de abandono do estádio.
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial (IA) para o Fotógrafo_RN. Não é uma fotografia histórica real.

O Maracanã é um dos maiores símbolos do futebol brasileiro. Mas, após os Jogos Olímpicos de 2016, o estádio enfrentou uma crise que foi muito além do campo: contas de energia atrasadas, necessidade de reparos, problemas de manutenção e disputas sobre quem deveria arcar com os custos de recuperação do complexo.

Antes de Flamengo e Fluminense assumirem a gestão compartilhada do estádio, em abril de 2019, o Flamengo já havia desembolsado dinheiro para viabilizar partidas no local. Reportagens publicadas na época documentaram parte dessa situação e ajudam a reconstruir essa história.

Afinal, quais problemas estavam registrados antes da chegada da dupla Fla-Flu? E o que sabemos sobre as despesas que os clubes precisaram enfrentar?

2016 e 2017: o Maracanã enfrentava uma grave crise

Depois dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016, o Maracanã passou por um período de deterioração e disputas sobre sua manutenção. A concessionária responsável pelo complexo era a Maracanã S/A, ligada à Odebrecht.

Em fevereiro de 2017, a revista Época publicou uma reportagem do jornalista Rodrigo Capelo revelando que a concessionária havia deixado quatro meses de contas de energia elétrica sem pagamento: outubro, novembro, dezembro e janeiro.

O débito com a Light chegou a R$ 1,35 milhão. Para conseguir utilizar o estádio na estreia da Libertadores daquele ano, contra o San Lorenzo, o Flamengo concordou em pagar a conta atrasada e bancar reparos necessários para a realização da partida.

A falta de energia comprometia até mesmo a irrigação do gramado.

Fonte: https://epoca.oglobo.globo.com/esporte/epoca-esporte-clube/noticia/2017/02/flamengo-paga-ate-contas-de-luz-atrasadas-do-maracana-para-recuperar-o-estadio.html

Uma força-tarefa para colocar o estádio em condições de receber jogos

Em março de 2017, o Flamengo mobilizou equipes para recuperar as condições de funcionamento do Maracanã.

Segundo reportagem do ge, cerca de 150 trabalhadores e dez empresas prestadoras de serviços participaram dos trabalhos. Entre as intervenções estavam limpeza, reposição de cadeiras, cuidados com o gramado e reparos nos sistemas hidráulico e elétrico, catracas, bilheterias e telões.

A estimativa de investimento divulgada naquele momento era de aproximadamente R$ 2 milhões, incluindo a conta de energia atrasada.

O episódio demonstra que o clube precisou investir recursos para que o estádio voltasse a receber partidas, ainda antes de assumir formalmente sua administração.

Fonte: https://ge.globo.com/futebol/times/flamengo/noticia/2017/03/fla-desloca-equipe-da-ilha-e-trabalha-com-150-pessoas-dentro-do-maracana.html

Abril de 2019: começa a gestão compartilhada

Em abril de 2019, o Governo do Estado do Rio de Janeiro escolheu Flamengo e Fluminense para administrar temporariamente o Maracanã.

A transição ocorreu depois da caducidade da concessão anterior. O acordo inicial tinha duração de seis meses, com possibilidade de prorrogação.

Segundo o ge, os clubes teriam de arcar com custos fixos estimados em R$ 2 milhões por mês, além de um pagamento mensal de R$ 166.666,67 ao Governo do Estado, destinado aos complexos esportivos Célio de Barros e Júlio Delamare.

Naquele momento, a administração exigia conciliar despesas de funcionamento, manutenção e realização de partidas com as receitas geradas pelo estádio.

Fonte: https://ge.globo.com/rj/futebol/noticia/flamengo-e-fluminense-vao-administrar-o-maracana-pelos-proximos-seis-meses.ghtml

Documento oficial detalha os custos de água e energia

A investigação não depende apenas de reportagens jornalísticas. Há também documentos públicos que ajudam a compreender as despesas do complexo.

O Ofício CFGO MRC nº 026/2019 apresenta um relatório sobre gastos com água e energia do Maracanã e do Maracanãzinho durante o período de abril a novembro de 2019.

O documento foi elaborado pelo Comitê de Fiscalização, Gestão e Operação da Permissão de Uso do Complexo Maracanã para subsidiar a avaliação dos custos de funcionamento e o planejamento da futura concessão.

Entre os dados apresentados, o relatório registra consumo médio mensal de energia de 539.199 kWh e custo médio mensal de R$ 522.865,78 entre abril e outubro de 2019.

Esses números ajudam a dimensionar o peso das despesas operacionais do estádio. Eles, porém, se referem ao período da gestão temporária e não devem ser confundidos com dívidas deixadas pela antiga concessionária.

Documento oficial: https://www.concessaomaracana.rj.gov.br/sites/default/files/arquivos_paginas/CFGO%20026-2019_MRC_Oficio_Contas%20de%20Consumo.pdf

O que sabemos — e o que ainda precisa ser comprovado?

Os registros reunidos nesta reportagem indicam que houve contas de energia atrasadas, necessidade de reparos e despesas expressivas para viabilizar a utilização do Maracanã antes da gestão compartilhada.

Entretanto, existe uma diferença importante entre pagar despesas para recuperar e utilizar o estádio e assumir juridicamente todas as obrigações da antiga concessionária.

Até o momento, não localizamos documentação suficiente para afirmar que Flamengo e Fluminense tenham assumido, de maneira geral, dívidas de salários, FGTS ou contribuições previdenciárias ao INSS deixadas pela administração anterior.

Para esclarecer essa questão, é necessário analisar a íntegra do instrumento firmado em 2019, seus anexos, os documentos de transição e eventuais processos trabalhistas, fiscais e previdenciários.

A investigação também precisa distinguir as obrigações da antiga concessionária, as responsabilidades do Governo do Estado, os compromissos dos clubes e as despesas de empresas terceirizadas.

Uma nova etapa na história do Maracanã

Em setembro de 2024, o Governo do Estado assinou com a Fla-Flu Serviços S.A. o contrato de concessão do Complexo Maracanã por 20 anos, abrangendo o estádio e o Maracanãzinho.

O contrato prevê obrigações e investimentos para a administração do complexo. Essa nova concessão, entretanto, não deve ser confundida com a transferência automática de dívidas históricas da antiga concessionária.

Documento oficial: https://www.rj.gov.br/casacivil/sites/default/files/arquivos_paginas/CONTRATO%20SECC%20033_2024.pdf

Conclusão

A história da recuperação do Maracanã revela um período de dificuldades operacionais e financeiras, no qual o Flamengo desembolsou recursos para viabilizar partidas e, posteriormente, passou a dividir com o Fluminense a responsabilidade pela gestão do complexo.

Os documentos e as reportagens disponíveis permitem reconstruir parte desse processo, mas não encerram todas as perguntas sobre os passivos históricos do estádio.

A próxima etapa dessa apuração é identificar, por meio dos contratos e dos registros oficiais, quais obrigações ficaram com a antiga concessionária, quais foram assumidas pelos clubes e quais permaneceram sob responsabilidade do poder público.

O Maracanã é patrimônio esportivo e cultural do Rio de Janeiro. Conhecer sua história administrativa é também uma forma de cobrar transparência sobre a utilização de um equipamento público tão importante.

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Nota editorial: reportagem elaborada com base nas fontes jornalísticas e nos documentos públicos indicados ao longo do texto. As informações sobre eventuais dívidas trabalhistas e previdenciárias permanecem pendentes de confirmação documental específica.

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